sábado, 25 de agosto de 2012

AMAZÔNIA, ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE

                   Benedito Jose de Carvalho Filho,
                        Doutor em Sociologia
 

Tradição e Modernidade é um dos temas centrais no campo das Ciênciais Sociais latino-americana. Também em outros campos do conhecimento, como na literatura e nas artes em geral, assim como na filosofia.
Raciocinamos, aliás, mais do que imaginamos com essas duas polaridades, aparentemente dicotômicas. Tradicional é sinônimo, muitas vezes, de atrasado, arcaico, enquanto moderno carrega o sentido do contemporâneo, do novo. O dualismo está impregnado na nossa visão de mundo e pensamos, na maioria das vezes, a sociedade em termos dessas duas polaridades.
Os nossos automóveis viram carroças perto da produção de carros produzidos nos centros dinâmicos do capitalismo. O Brasil precisa entrar na modernidade com alguma pressa senão perde o bonde da história, dizem os nossos políticos e nossos presidentes em viagem pelo mundo da modernidade.
A tradição, o velho, têm sido ainda os fantasmas não exorcizados nesses dois Brasis que insiste manter em suas estruturas símbolos e códigos ditos modernos, convivendo com formas arcaicas de produzir e pensar. A imagem mais impressionista é testemunhada pela foto de um índio amazônico manuseando uma moderníssima filmadora de vídeo-cassete, foto estampada em um dos números da revista Time.
 O Brasil parece ter pressa em entrar no mundo da modernidade, mas não consegue dar conta das suas ambigüidades internas. (daí porque um conhecido economista brasileiro criou a expressão belíndia para caracterizar a nossa sociedade). Nós temos o carro último modelo, uma parcela da população consome produtos sofisticados da indústria eletrônica mundial, mas socialmente conservamos uma estrutura social perversa.  É a nossa modernização conservadora, do capitalismo tardio, como alguns preferem chamar.
Há muitos anos as ciências sociais vêm trabalhando com essa temática. Diríamos, mesmo, que desde o nascimento das ciências sociais no Brasil, esse vem sendo um dos eixos centrais que orientaram (e vem orientando, ainda ) as suas discussões.
 As primeiras formulações conceituais nesse campo surgiram a partir da década de 50, sendo, posteriormente, submetida a uma severa crítica. O uso (e abuso) desse conceito iniciou-se com certa matriz sociológica desenvolvida nos Estados Unidos com seus estudos comparativos sobre as sociedades ditas subdesenvolvidas , termo que aparece depois da Segunda Guerra Mundial, usado para caracterizar as sociedades que se encontram em processo de trânsito, de mudança, da tradição para a modernidade.
Os estudos desse período têm como eixo central, portanto, a compreensão das sociedades ditas tradicionais a partir de modelos de uma sociedade industrializada e urbanizada, as sociedades integradas ao sistema capitalista.
 Modernização, nesse sentido, passa a ser associada à difusão dos modos de vida, valores e concepções de uma sociedade urbana industrial para as sociedades tradicionais. A marca substantiva do conceito, pelo menos nas ciências sociais em certo tempo, associa subdesenvolvida, a repetição de características econômicas da estrutura social, psicossociais e de organizações políticas das sociedades norte-americanas tradicionais.
Estudos sociológicos no Brasil na década de 60 e 70 estão fortemente marcados por esse paradigma, como podemos observar nos trabalhos iniciais de Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Antônio Cândido e outros, onde a tentativa é compreender, através dos estudos de comunidades, do negro, do folclore, a persistência da tradição, reunindo diferentes tipos de descrição, buscando compreender “os êxitos e fracassos da revolução burguesa em processo.”[1]  Estudos de caso  sobre os caipiras, sertanejos, a formação das cidades, as sociedades tribais, eis os temas que vão marcar as ciências sociais nesse período.
Seu enfoque central é descobrir e analisar a persistência dentro da sociedade brasileira de  formas tradicionais  de cultura e, à partir daí, compreender as tendências das mudanças e suas resistências. O processo de modernização é visto como um complemento de etapas na qual um complexo conjunto de variáveis iriam se transformando mais ou menos homogeneamente em sucessivas aproximações para chegar, então, à modernidade.
Prevaleciam as idéias de que as sociedades subdesenvolvidas reproduziriam o mesmo percurso das sociedades modernas já integradas ao sistema capitalista. Isso marcou e influenciou muitos trabalhos de investigação nas ciências sociais no Brasil e na América Latina, de uma maneira geral. [2]
As premissas dessas concepções não resistiram às críticas, originadas principalmente de uma matriz de análise marxista, questionando duramente o dualismo ahistórico das teorias funcionalistas em franca difusão no meio acadêmico. Esses modelos de análise sustentam-se na teoria de que “as sociedades latino-americano  pertenceriam a um tipo estrutural dominando geralmente a sociedade tradicional , em que estaria produzindo a passagem a um outro tipo de sociedade chamada moderna.  No curso do processo de mudança social, pareceria que, antes de se constituir a sociedade moderna, forma-se um padrão intermediário, híbrido, que caracteriza as sociedades dos países em desenvolvimento. Quando não, formam-se situações outras que permanecem arcaicas. Invoca-se então a noção de dualismo estrutural. Na realidade, metodologicamente, trata-se da velha dicotomia comunidade sociedade  um sua forma clássica em Tonnies.[3]
Ainda segundo Cardoso,[4] “é possível criticar esse esquema com certo fundamento segundo dois pontos de vista. De um lado, o conceito de  tradicional e  moderno  não são  bastante amplos para abranger de forma precisa todas as situações sociais existentes, mas permitem distinguir entre elas os componentes estruturais que definem o modo de ser das sociedades analisadas e mostram as condições de funcionamento e permanência. Tampouco se estabelecem os nexos inteligíveis entre as diferentes etapas econômicas e os diferentes tipo de estrutura social que pressupõe as sociedades tradicionais e as  modernas.”
Para ele, “quando se trata de vincular a análise estritamente econômica à compreensão do desenvolvimento político e social, o problema a ser formulado não é somente o caráter da estrutura social de uma dada sociedade, mas principalmente o processo de sua formação, como também a orientação e tipo de atuação das forças sociais que pressionam para mantê-la ou modificá-la, com todas as suas repercussões políticas e sociais que impliquem o equilíbrio dos grupos tanto no plano nacional, como no plano externo. Acho, por outro lado, que as análises do modernismo e do tradicionalismo parecem excessivamente simplificados quando se estabelece um relação unívoca, por um lado entre subdesenvolvimento e sociedade tradicional.”[5]
A partir de trabalhos, como este citado, começaram a surgir críticas mais radicais a essas concepções, pondo em dúvida, inclusive, os conceitos de tradição e modernidade e concebendo a mudança social numa outra perspectiva. O conceito de modernidade enquanto sucessivas aproximações das sociedades ditas desenvolvidas, que através de etapas iam naturalmente se incorporando à modernidade foram pouco a pouco sendo criticada, apesar de persistirem como paradigmas para entender a questão da modernidade. Mesmo o enfoque sociológico mais recente, que dá um peso à compreensão das características estruturais de regiões subdesenvolvidas, não se afasta, ainda, de algumas categorias anteriores.[6] Alguns consideram que, apesar desse conceito ter dominado as ciências sociais durante pelo menos uma década e de haver orientado valiosas investigações, pertencem a lista dos instrumentos técnicos fundamentais superados. Existe o uso de termos que chegaram a inspirar trabalhos na América Latina, mas já restritos a aspectos muito mais limitados e com a explícita noção que devem ser incorporados a modelos descritivos e explicativos muito diferentes dos utilizados nas versões originais desse conceito.
Num outro pólo de discussão é importante destacar o que estamos entendendo por tradição.  Não vamos entrar na discussão em profundidade sobre essa questão, pois sabemos que ela não se esgota nos domínios das ciências sociais.
. Tradição pode se entendida como um modo de comportamento ou padrão produzido por um grupo distinto que serve para intensificar a consciência de um grupo e a sua coesão. O que está presente quando se discute o conceito de tradição é a idéia de continuidade, estabilidade e vulnerabilidade. É o conjunto da sabedoria coletiva, incluindo a tradição do grupo. Nesse sentido, o peso da tradição, sua autoridade, deriva da crítica implícita daqueles que preferem confiar no seu próprio conjunto de razões. Tradição, portanto, é freqüentemente entendida como fonte de legitimidade.
Não pretendo, aqui, fazer um balanço crítico das concepções que vêm fundamentado as ciências sociais, nem entrar na discussão sobre as razões pelas quais persistem em nossa estrutura social elementos ditos tradicionais ou arcaicos. A intenção é compreender as implicações das categorias moderno e tradicional na construção de um paradigma de análise nas ciências sociais, em especial na sociologia. Essa, segundo o nosso ponto de vista, é uma das razões da crise das explicações sociológicas no mundo contemporâneo. Como trabalha com processos de mudança diacrônico, numa perspectiva teleológica, tão própria do pensamento iluminista evolucionista, a sociologia acaba sendo aprisionada por uma visão totalizadora, muitas vezes reducionista, como se os processos sociais, as mudanças, ganhassem significado somente quando apreendidas nesta perspectiva. Uma exceção no campo das ciências sociais é a antropologia, que, por trabalhar com sociedades fora do tempo iluminista, como as ditas sociedades tribais ou primitivas, é obrigada a desfazer-se de teorias totalizadoras e das visões lineares presentes nas análises evolucionistas.[7] A antropologia, com o estruturalismo, vem nos mostrando que as sociedades primitivas não são um amontoados irracionais de indivíduos selvagens, mas, pelo contrário, mostra-nos que na sua aparente selvajaria encontra-se uma estrutura extremamente complexa, com seus mitos, as relações de parentesco e as trocas.[8] A historiografia contemporânea, vem questionando a visão linear das análises evolucionistas que trabalham com uma visão de história unívoca. Habermas[9], por exemplo, nos mostra que “desde o fim do século XVIII a história é concebida como um processo mundial que gera problemas. Nele o tempo é entendido como um recurso escasso para a superação prospectiva dos problemas que o passado nos legou. Passados exemplares no qual o presente pudessem confiantemente orientar-se - diz ele - esvanecerem-se. A modernidade já não pode emprestar seus padrões de orientação de modelos de outras épocas. Ela encontra-se completamente abandonada a si mesma, tem que extrair de si a sua normatividade. Daqui em diante, a atualidade, o autêntico, é o lugar onde se entrelaçam a continuação da tradição e a inovação.”
O que significa isso concretamente para as ciências sociais? Habermas, na verdade, está nos propondo outras formas de sentir, pensar e analisar isso que nós sociólogos chamamos de sociedade. A análise marxista, por exemplo, trabalhou com uma noção de história onde o tradicional era visto como um fantasma a ser exorcizado. A cultura de folk, a sociedade sertaneja, enfim, todos os modos primitivos (ou asiáticos) eram considerados reminiscência de uma tradição que só seria expurgada com o desenvolvimento das forças produtivas. É por isso que Marx saudava com entusiasmo a colonização inglesa na Índia.
Nesta época de globalização a sociologia  não conseguiu se desvencilhar  de seus velhos paradigmas. A modernidade continua a ser pensada como um processo a ser induzido de fora. Em muitas áreas de produção sociológica a ideologia desenvolvimentista transmutou-se no discurso da globalização. Se antes o desenvolvimento era encarado como uma tarefa urgente, cabendo a responsabilidade ao Estado, hoje a palavra de ordem é a incorporação no mercado internacional e o Estado Mínimo. Se antes os sociólogos eram os “intrépidos agentes da mudança social”, produzindo novas explicações sobre a realidade social, hoje uma parcela grande de sociólogos que, no passado eram críticos, tornaram-se hoje intrépidos agentes da integração a todo custo no mercado internacional. A sociologia como pensamento crítico para a construção de uma sociedade utópica perdeu o seu vigor e se tornou “realista”.
Essa tendência já era observada por alguns  sociólogos estudiosos da sociologia latino-americana. Morande,[10] nos mostra, por exemplo, que apesar das divergências que se observam nas obras produzidas sob perspectivas ideológicas e políticas distintas, em todas elas havia uma  valorização positiva da modernidade  (o grifo é nosso),por desejável ou inevitável, e a percepção de que era necessário realizar ações modernizadoras no conjunto da vida social e institucional de uma forma racional e planejada. Nesse sentido, poderíamos dizer, que a sociologia entre nós é filha do anseio pela modernidade e sua razão de ser.[11]
Hoje uma parcela considerável dos teóricos da sociologia, principalmente os mais críticos, questiona com bastante veemência os paradigmas nas quais se assentaram as ciências sociais até agora. Um desses paradigmas é exatamente a concepção de desenvolvimento. Emerge uma consciência cada vez mais forte que esse desenvolvimento está associado com a degradação do meio ambiente e que é necessário, para conter essa degradação, mudar o atual modelo de desenvolvimento econômico. Na sociedade há uma acalorada discussão puxada por ecologistas, pacifistas, organizações não governamentais, governos etc no qual sociólogo, junto com ambientalistas, cidadãos comuns, e outros atores sociais são obrigados a repensar as velhas noções de progresso e o próprio sentido das relações sociais. A discussão sob a Biodiversidade está exigindo um novo tipo de regulação social. Há uma consciência cada vez maior de que o planeta é um patrimônio universal e que, se continuarmos com os desmatamentos, a poluição, usando tecnologias sem critérios racionais, acabaremos sucumbindo nas nossas promessas faustianas.
A sociologia vive em uma fase de transição paradigmática. Uma transição que está exigindo mudanças radicais de perspectivas, principalmente porque, até agora, vem alicerçando seus pressupostos na tentativa de compreender e estudar sociedades nacionais, como no século XIX, quando a sociologia surgiu, enquanto o mundo contemporâneo, quase no limiar de um novo século, está exigindo respostas absolutamente novas para enfrentar novos desafios. Um desses fenômenos é a globalização, com todas as suas implicações econômicas, políticas e culturais. Imagens otimistas e catastróficas associa-se a seu nome, e, perplexa e assustada, a sociologia sente os efeitos da explosão da modernidade que ela ajudou  a criar. No momento em que a versão  neo-liberal, reforçado pelo colapso do socialismo real  tornou-se hegemônico esfarelou-se as utopias. A sociologia, como não poderia deixar de ocorrer, entra em crise. Acabaram-se as tarefas da sociologia?
Cabe à sociologia o papel que sempre teve diante da realidade social. Um desses papéis, ressaltado pelo professor Boaventura[12] em uma de suas conferência em que estive presente, é exercitar “no meio de tantas evidências e certezas” a “hermenêutica da suspeição”, o que não significa se colocar em posição defensiva, recorrendo aos velhos referenciais, mas buscar novos tipos de explicações para fenômenos sociais absolutamente novos que estamos presenciamos. Há uma gama de questões abertas para a pesquisa sociológica na atualidade. Temáticas voltadas para o significado do trabalho na sociedade contemporânea, o impacto das novas tecnologias, as novas formas de sociabilidade e identidades culturais, os conflitos interétnicos, religiosos, problemas relacionados ao eco-sistema etc. são algumas questões que estão na ordem do dia, exigindo o desenvolvimento de competências bastante diferentes do passado.[13]
Um outro campo bastante rico e amplo que está exigindo criatividade e análise científica da sociologia relaciona-se aos problemas locais na sua articulação com os mais globais. Como nos mostrou Boaventura  a globalização é sempre parte dos localismos, hoje dinamizados pelas amplas possibilidades que a mídia e a informática abriram. As culturais locais ganham dimensões planetárias quando são capazes de desenvolver competências regionais, nacionais. Esse é o sentido da globalização que, aparentemente,  homogeneiza tudo, quando, na verdade, abre possibilidade das singularidades se manifestarem. Hoje, por exemplo, com a movimentação de pessoas circulando pela terra, como o turismo, o que é singular, exótico, regional ganha uma dimensão inimaginável no mundo contemporâneo. Daí a importância das culturas locais, do resgate das tradições, da língua, da história do lugar onde se vive e trabalha. O sociólogo, o antropólogo e outros cientistas sociais têm uma imensa tarefa pela frente. Trata-se de mergulhar no seu vernáculo, conforme a expressão de Boaventura, para se tornar universal. Nunca foi tão claro para a sociologia - como foi para a literatura - que não há possibilidade da universalização sem o desenvolvimentos dessas competências locais, o que não significa de forma alguma isolamento social e cultural, nem um nacionalismo xenófobo e estreito. São sociedades que, apesar de viverem em tempos de desenvolvimento diferentes, convivem com as  singularidades, as diferenças, os conflitos etc. Hoje, por exemplo, não dá para o cientista social compreender a Amazônia  sem relacioná-la com o que ela significa para o mundo em termos de eco-sistema, assim como não é possível entendê-la, também, se não a conhecemos na sua especificidade, com suas riquezas biológicas, minerais e sociais Compreender o local na sua articulação com o global, e vice versa, é um desafio para as ciências sociais contemporâneas, o que certamente exigirá mudanças radicais na formação do futuro cientista social. A interdisciplinariedade, o conhecimento da política internacional, uma visão menos etnocêntrica e mais voltada para compreensão da heterogeneidade política, econômica e cultural passará, certamente, fazer parte do perfil  do futuro cientista social.
Numa sociedade em que a modernidade não se concretizou, temos tarefas modernas para realizar. Talvez por isso as promessas desenvolvimentistas da sociologia latino-americanas nestas quatro décadas ainda têm seu apelo, mesmo que desprovidas de seus aspectos revolucionários e utópicos ( a “utopia desarmada”, do qual se referia o escritor mexicano ). Mas, em “uma sociedade que vem se modificando muito rapidamente, tornando-se cada vez mais heterogênea, diferenciada, com novas clivagens surgindo e cruzando transversalmente a estrutura de classe, desfazendo identidades tradicionais, criando outras tantas e gerando uma pluralidade de interesses e demandas nem sempre convergentes”,[14] é tarefa, também, a sociologia “desafiar a imaginação política” e “tornar comensurável a heterogeneidade inscrita na vida social, “criando novos direitos e inventando e reinventando novas sociabilidades.
Esperamos ter contribuindo com essas reflexões para o debate cada vez mais necessário nas ciências sociais, o que só poderá ocorrer se sairmos de nossos nichos e da letargia que nos assola no fim desta era dos extremos, segundo a expressão utilizada por Erich Hobsbaw[15] para caracterizar o confuso século que agonizou. A sociologia há de renascer das cinzas. Ou não... Se renascer certamente não será matizada pelos velhos paradigmas que marcaram o seu surgimento no alvorecer na modernidade, já um capítulo da velha tradição sociológica.
Creio que todos esses problemas que aqui abordei de forma bem restrita tem a ver com nossa região, a Amazônia, hoje na pauta de discussão internacional, por causa, principalmente de seu eco-sistema e sua biodiversidade.
Lúcio Flávio Pinto, no seu último livro, Guerra Amazônica, nos oferece, por exemplo, uma espécie de esboço de modelo para pensarmos o papel da ciência e da tecnologia na Amazônia. Seu esboço, meio saint-simoniano, deixa pistas importantes para reflexão, principalmente quando aborda o papel da universidade na região, que vale a pena ler e meditar. Mas só tornaremos isso realidade quando, conforme nos advertiu Boaventura da Silva, nossas competências locais deixarem seu complexo de inferioridade e tomarem para si o desafio de pensar a Amazônia a partir de debates inteligentes. Isso significa repensar a sociologia amazônica (se é que existe) em outros parâmetros.



[1] Ver os estudos de Sociologia dessa época, como os trabalhos de Florestan Fernandes em Comunidade e Sociedade, Editora EPU; os trabalhos de Fernando Henrique Cardoso, buscando compreender a sociedade capitalista e as classes sociais no Brasil; o esforço de Octávio Ianni, no seu livro Metamorfose do Trabalho Escravo, Trabalho e Desenvolvimento no Brasil, de Luiz Pereira; Homens Livres na Ordem Escravocrata, de Maria Silvia Carvalho Franco. Sociedade Industrial no Brasil, de Juarez Lopes Brand
[2] É interessante observar que apesar das críticas feitas a essas concepções, de certa formas elas, com outra linguagem, reaparecem nos dias de hoje, travestidas na discurso da globalização.
[3] CARDOSO,Fernando Henrique. Dependência e Desenvolvimento na América Latina. Ed. Zahar  p.16-17
[4] Op.cit.
[5] Op.cit.
[6] A Chamada teoria da dpendência, que surge como uma crítica às teorias do CEPAL, reivindicando a necessidade de analisar cada formação histórica em particular, “a relação interna das classes sociais”, que dá fiosonomia própria da dpendência, conforme as análises de Cardoso e Falleto, não consegue se desvencilhar também de uma concepção evolucionista, própria de uma vertente do pensamento marxista.
[7] Aqui estou me referindo à tradição antropológica que começa com Malinowski na sua análise sobre os trodiandeses. Morgan e outros antropólogos não tinham ido à campo e estavam profundamente impregnados das teorias darwinistas. Essa concepção inspira as concepções evolucionistas de Engels.
[8] Ver Strauss, Levi. Estruturas Elementares do Parentesco. Editora Vozes, RJ. Ver, também, O Pensamento Selvagem Cia Editora Nacional - SP
[9] HABERMAS, J.A. A Nova Intrasparência : A Crise do Estado de Bem-Estar Social e o Esgotamento das Energias Utópicas. Novos Estudos CEBRAP, p.18
[10] MORANDE, P. La Crises del Paradigma Modernizante de la Sociologia Latino-Americana. Revista de Estudos Sociales, n.33, 1982, p. 117.
[11] “A sociologia deu seus primeiros passos rumo à sua consolidação e institucionalização na mesma época em que se colocava em discussão a problemática do desenvolvimento. Nos anos 40 e 50, quando a ideologia desenvolvimentistas empolgou boa parte da intelectualidade latino-americana e conquistou a adesão das forças sociais heterogêneas ao projeto de consolidação do capitalismo urbano-industrial, lançaram-se as bases institucionais da produção sociológica latino-americana. A criação do CEPAL, no Chile, em 1948, é um exemplo da preocupação de alguns governos - em particular o Chile, autor da proposta, e do Brasil - com os obstáculos que entravavam o desenvolvimento, ou seja, com o trânsito das sociedades tradicionais para as sociedades modernas. Coube a ela  um papel de destaque no desencadeamento do processo de emancipação do pensamento latino-americano em relação aos centros de produção científico situado nos países desenvolvidos. Também com esse objetivo fundaram-se, no decorrer dos anos 50, a Faculdade Latino-Americano de Filosofia e Ciências Sociais (FLACSO), o Insituto Latino Americano de Planificação Econômica e Social, ambos no Chile, e o  Centro Latino Americano de Pesquisas Sociais, sediado no Rio de Janeiro, bem como os cursos de Sociologia em várias Universidades do continente.” ( Ver SOARES, Maria Susana Arrosa. Sociologia Modernizante na América Latina. Revista Perspectiva  - Fundação SEADE, vol. 5. N. 1 )
[12] Ver Globalização, Identidades Locais e Pós-Modernidade Contestatória : Desafios da Sociologia na Final do Século. Transcrição da Conferência do professor Boaventura de Souza proferido na Universidade Federal do Ceará em setembro de 1995. Transcrição feita por Benedito Carvalho Filho.
[13] “O sociólogo é muito dominado por uma hermêutica da suspeição - como dizia Paul Ricoeur. Isto é, nós temos que desconfiar das evidências, das obras fechadas, como diz Durkheim e, mais tarde Boudieu. Vamos então tentar analisar com mais cuidado isso que se chama hoje de globalização. E isso tem muito a ver com questões estruturais, como os movimentos sociais, o Estado, as políticas culturais e sociais. Tudo isso, de alguma maneira, está envolvido no processo de globalização.”( SANTOS, Boaventura de Souza. Op. Cit. ). Diz o professor na sua conferência que o sociólogo na época contemporânea tem que ser capaz de trabalhar com outros profissionais e estudar coisas que jamais pensou em estudar, como ecologia, direito internacional etc.
[14] Ver TELLES, Vera da Silva. Pobreza, Movimentos Sociais e Cultura Política : Notas sobre as difíceis relações entre Pobreza, Direitos e Democracia, in Brasil no Rastro da Crise. DINIZ, Eli. Et alli (Organizadores) Editora Hucitec e ANPOCS-IPEA, São Paulo, 1994.
[15] HOBSBAWM. A Era dos Extremos. Editora Cia das Letras, SP, 1995

CARTA INDIGNADA A UM PROFESSOR: OS “CORONEIS DA EDUCAÇÃO” E SEUS “AGIOTAS”


Benedito José de Carvalho Filho*
Doutor em Sociologia
Fortaleza, 2008

Professor Daniel Lins, gostei muito do teu artigo de domingo no jornal O Povo sobre a greve da Universidade Estadual do Ceará (UECE) chamado Conceito de Reacionário.
Realmente, Daniel, nós, professores, estamos sendo humilhados e não vejo nenhuma reação, além dessa greve que, como disseste, a mídia e o governo denegam. E nas Faculdade chamadas “privadas”, meu caro? Você tem conhecimento da prática dos chamados “gestores da educação” nesse estado e o que eles fazem com o professor?
Estou enviando um pequeno artigo que fiz baseado na minha experiência numa dessas instituições onde “o professor não existe”, ou quando existe é para cair nas mãos do que chamaste, como toda ênfase, de “agiotas” ou “coronéis letrados”. Veja a minha sintética visão sobre esses centros de produção de angústias, conforme o termo tão significativo que usaste.
“Estamos quase chegando numa época que a “verdade do mercado” na educação começa a cobrar a fatura – para não dizer a “farra”, conforme mostrou o jornal paulista Folha de São Paulo, do dia 18 de abril de 2008, terça-feira, onde publicou uma página inteira nos mostrando a crise das faculdades e universidades particulares de São Paulo, que vêm cortando cursos por falta de alunos. Só na cidade de São Paulo, segundo o jornal, pelo menos, sete instituições fecharam cursos (“enxugaram”, como se diz no economês), atrasaram salários de professores ou tiveram suas aulas prejudicadas devido a greves do passado (quem disse que nas instituições privadas não se faz greve?). Uma delas fechou as suas portas e nem sequer avisou aos estudantes. As coisas estão bravas.
Razões da crise? Segundo a interpretação do jornal, “o aumento da concorrência deflagrada no fim dos anos 90, no Governo FHC criou uma oferta maior que a demanda. O Censo de Educação Superior (2004) aponta que o número de ingressantes nas instituições particulares cresceu 2% em relação ao ano anterior. No mesmo período, a quantidade de vagas oferecidas aumentou 16,8%. Assim, cresceu o número de vagas ociosas, que chegou a 49,5% do total; em 1998, era de 20,2%”.
Terá sido somente essa “lógica do mercado” a única responsável por essa situação? O agora consultor, ex-ministro da Educação do governo FHC, Paulo Renato, mesmo tento sido o grande incentivador do ensino privado, reconhece que no seu tempo de ministério as instituições podiam criar cursos que quisessem. Mas agora – reconhece – “não é mais assim”.
Outro consultor usa uma imagem mais aventureira, como os pioneiros americanos e os que correram para Serra Pelada, mais recentemente nos rincões de nossa devastada Amazônia: “Foi uma verdadeira corrida ao ouro, todo mundo achava que poderia ganhar dinheiro com faculdade”. Mas reconhece que “muitas universidades que surgiram na época da fartura são incompetentes tanto na questão educacional quanto na gestão.”
O sr. Rayon Braga, o consultor que fez o diagnóstico acima, escapa um pouco do economicismo e nos convida a fazer algumas reflexões.
Vamos começar analisando a implantação dessas faculdades e centros superiores de ensino aqui em Fortaleza e algumas cidades do interior, trabalho, diga-se de passagem, daria uma ótima pesquisa para quem desejar conhecer as transformações do ensino superior nessas paragens.
Somente nesta cidade, a quinta maior em população e uma das rendas mais concentradas do Brasil, existem mais de 30 faculdades particulares. Isso em uma região onde mais de 70% da sua população vive com menos de um salário mínimo. Nessa “corrida ao ouro”, segundo a expressão do assessor, quem vem lucrando com isso? Como foram abertas as concessões e quem está realmente ganhando dinheiro com essa mina? Muitas delas são propriedades privadas de pessoas e grupos que nunca trabalharam ou tiveram suas atividades voltadas para educação. São pessoas e grupos econômicos provenientes de outros setores que nada têm a ver com a educação.
Uma dessas faculdades, por exemplo, tem como proprietário um exportador de carne, ramo bovino que nada tem a ver com a cultura e o conhecimento. Outros, como um proprietário de inúmeras universidades e centros de ensino espalhados por esse Brasil, possuem “Faculdades Deliverys” funcionando em shopings centers, como no Rio de Janeiro e diversas cidades do Brasil.
Um desses “coronéis da educação” num discurso de improviso, não teve o pudor de afirmar numa revista de circulação nacional que a função de “sua faculdade” (como se ela não fosse um bem público e uma concessão do Estado) não é fazer pesquisa coisa nenhuma, produzir conhecimentos (isso seria luxo demais!), mas, nessa corrida ao ouro, entupir  as salas de aula de alunos e, sem a mínima complacência, tratar os professores como se fossem peões de obra, pois muitos trabalhadores da educação que vivem o seu cotidiano nessas faculdades são extremamente explorados e tratados como idiotas.
Aproveitando o grande desemprego de profissionais da educação, e até mesmo de professores mal pagos das universidades públicas esses empresários não têm o pudor de pagar salários ilusórios que mal dá para os professores se reproduzirem como mão de obra. Esta, talvez, seja a razão da inexistência da luta sindical entre a categoria, pois muitos professores e professoras vão para essas instituições autodenominadas privadas para complementar salário ou porque não encontram vagas como professores e professoras nas universidades públicas.
O mais interessante – para não dizer trágico – é que essas instituições particulares de ensino não gastam um tostão na formação e no aperfeiçoamento de seu quadro docente, que fizeram, na maioria das vezes, seus mestrados e doutorados em universidades públicas e estão buscando complementar seus parcos salários nessas instituições, sobrecarregados de horas de aulas, convivendo cada semestre com a incerteza se vão ter ou não aula, mantendo-se numa insegurança e ansiedade permanente, onde a competição é atroz,  dividindo a categoria e impedindo qualquer movimento reivindicatório.
A grande complicação – chamada de “crise” – das faculdades privadas, com raras exceções, não é só o excesso de cursos sem aluno, na incompleta reportagem do jornal paulista. É verdade que tudo isso passa por tudo que me referi acima, mas tem a ver, também, com a proletarização das famílias das camadas médias da sociedade brasileira e cearense que fazem das tripas coração para pagar um ensino caro para os seus filhos nessas faculdades, como pude testemunhar ao ouvir as lamúrias de muitos de meus alunos e alunas. Apenas 17,3% da população brasileira entre 18 e 24 anos está matriculado no terceiro grau e como o único meio de ascensão da classe média é via educação (quem, hoje, não tem um diploma de curso superior não consegue nem um emprego de caixa de supermercado). Por isso a corrida ao diploma é uma disputa encarniçada e cruel nesse darwinismo social nesses tempos neoliberais. E que se dane a qualidade.
Os empresários lutam pelo ouro nessa corrida endoidecida, oferecendo e mascarando o sonho de “chegar lá”, enquanto enchem os bolsos maximizando seus lucros e nos fazendo acreditar que são desinteressados empresários preocupados com a formação de nossos jovens.  
Tem razão o assessor quando reconhece que há muita incompetência tanto na questão educacional quanto na gestão dessas instituições. Tem muitos gerentes dirigindo faculdades como se elas fossem fábricas de linha de montagem taylorista e que, além de não terem qualificações para gerir uma unidade de ensino, são incompetentes em matéria educacional, uma espécie de “paus mandados” – ou para usar uma expressão mais condizente como fazem de sua auto-imagem – são “executivos” ou executores das ordens dos chefes que dizem essas bobeiras citadas pela revista de circulação nacional que citei acima.
Querem ver salas lotadas, professores dóceis e alunos que nada reivindiquem, mas paguem caninamente em dia suas suadas mensalidades. E mais: querem a conivência e a cumplicidade de certos professores sempre dispostos a prestar serviços, principalmente quando se tornam coordenadores ou chefes de não sei o quê.  Às vezes se tornam piores e mais autoritários que o patrão, como bem o caracterizou Paulo Freire na sua Pedagogia do Oprimido, pois introjetam a imagem do opressor e se tornam piores que ele.
 Na marcha para oeste, os desbravadores paulistas, cariocas, mineiros¸ ou de outras plagas (alguns prefeririam que fosse norte americano e europeu), se vêem (e vêm para o sertão) como desbravadores, para não dizer, pioneiros no meio da bugrada.
Nunca esqueço, por exemplo, de uma reunião que participei numa dessas faculdades quando o seu gerente diante de uma platéia passiva e bovinamente silenciosa disse com todas as letras: “eu quero é o cérebro de vocês”. Nossos primitivos antropófagos eram mais sutis, não é cara-pálida?
Na verdade, o que eles “coordenam”? A atividade pedagógica? A proposta do curso? A formação humana e intelectual dos alunos? A sua cidadania e novos valores?  Estão preocupados com a cultura?
 Isso é secundário, pois a lógica à corrida ao ouro é manter as salas cheias e comprar o silêncio dos que tem medo de perder o emprego no parco mercado de trabalho.
Uma unidade de ensino universitário não é uma fábrica onde se põe em prática uma gerência autoritária, impondo disciplinas e não sabendo conviver com a diversidade criadora. A grande verdade é que o MEC, tanto no governo FHC, como no governo Lula, são monitorados pelos interesses dos grandes lobbies de Brasília, que permitem, por exemplo, dispensar professores doutores quando os cursos são aprovados.
Os alunos “fregueses da casa” por um período podem ser idiotas, como nos mostra aqueles que foram enganados em São Paulo, mas pouco a pouco vão refletindo, tendo mais critérios de escolhas e percebendo a qualidade do produto que recebem, mesmo quando iludidos com os outdoors espalhados pelas cidades prometendo maravilhas.
O ensino superior privado precisa urgentemente ser revisto em todos os seus aspectos. Precisamos de gestores-educadores e não de administradores na corrida ao ouro. Educadores que abram oportunidades para que os professores sejam criativos, cultivem seus conhecimentos, paguem salários decentes, invistam na sua formação e, sobretudo, compreendam que a sala de aula não é um palco de auditório de alunos que vão para os matadouros satisfeitos. A educação é uma coisa muito séria para ser entregue aos dóceis e subservientes executivos paus mandados.  
Nós, professores temos um pouco de culpa e responsabilidade em tudo isso. Suportamos como carneirinhos dóceis as ordens desses coronéis. Cada um fica “na sua”, denegando, também, a nossa própria realidade na ânsia de ganhar alguns trocados a mais, enquanto assistimos o próprio governador e outros cupinchas do poder bajular esses “coronéis da educação”.
                                       

GUERRA AMAZÔNICA E O JORNALISTA LÚCIO FLÁVIO PINTO



                                             
Benedito José de Carvalho Filho
 Sociólogo, escrito em 2005
 


Em épocas (não muito remotas) o conhecimento do que denominamos realidade brasileira, com sua imensa diversidade econômica e cultural, era escrito a partir do olhar hegemônico da região sudeste, mais particularmente de São Paulo, onde a modernidade já demonstrava sinais visíveis da necessidade de conhecer esse obscuro, enigmático e polêmico país chamado Brasil.
Os intelectuais da Universidade de São Paulo, mais visivelmente, constituíam a vanguarda desse movimento, produzindo obras que até hoje são marcos importantes para quem deseja conhecer esse país.  A produção intelectual regional, exceções, naturalmente, de Gilberto Freyre, era sempre marginal e praticamente ignorada pela intelectualidade que sempre via o Brasil com as lentes do colonizador.
Hoje, viajando pelo Brasil e consultando a produção intelectual de cada região, percebemos que isso vem mudando. Não poderemos mais afirmar que a produção intelectual e o conhecimento do país concentram-se somente no eixo São Paulo-Rio de Janeiro.  Atualmente é imensa quantidade de pesquisas, ensaios, literatura, jornalismo, arte, etc. produzidos em diversas regiões do país formando um imenso grande caleidoscópio que, na maioria das vezes, relativizam as grandes narrativas sobre o Brasil, não só com relação ao seu passado, mas, principalmente, a sua história contemporânea, ainda muito mal conhecida.
O historiador, sociólogo, antropólogo e outros cartógrafos, para usarmos uma linguagem de Deleuze e Guattari, que se aventurarem conhecer esse outro Brasil não podem mais desconhecer a realidade regional sob a pena de fazerem generalizações apressadas, como é freqüente no meio acadêmico brasileiro.
O livro mais recente do jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto é, hoje, leitura obrigatória para quem deseja conhecer de verdade o que acontece na polêmica região amazônica. 
O seu livro chamado Guerra Amazônica, não foi publicado dentro das cátedras universitárias, mas a partir de sua longa experiência como jornalista e sociólogo em uma região que se tornou centro de discussão nacional e internacional, não só por possuir uma das maiores florestas tropicais do planeta, mas por ser o palco de conflitos envolvendo grandes grileiros, madeireiros, posseiros, mineradoras e o próprio Estado.
Sediado em Belém do Pará, Lúcio publicou o livro em novembro de 2005, o primeiro volume, e promete a edição de um segundo, onde narra não somente os rastros da destruição (título de um de seus livros), mas os dilemas (muitas vezes trágicos) de ser jornalista numa região colonizada, onde a verdade e os fatos são normalmente ocultados pela pequena elite que dita ordens para a bugrada. Lúcio Flávio faz, como ele mesmo diz, um “jornalismo na linha de tiro (de grileiros, madeireiros, intelectuais, etc.& cia.)” e paga um preço alto por isso, pondo em risco a sua própria vida.
Hoje, aos 56 anos, várias vezes premiado, inclusive no exterior, seu instrumento de luta é o Jornal Pessoal, quinzenário de pequeno formato, com 12 páginas, dois mil exemplares, que circula em Belém, publicando matérias que jamais sairiam na chamada grande imprensa, principalmente a local, dirigida por duas família que manipulam informações toda vez que ferem os seus interesses e dos grupos dominantes.  Por sua intrepidez, Lúcio responde a 13 processos, simplesmente por revelar os bastidores da imensa máquina publicitária movida pela família Maiorana. Já foi violentado com truculência, não só simbolicamente, mas de fato, quando um dos donos do jornal O Liberal o agrediu covardemente em um restaurante em Belém do Pará, fato que teve repercussão nacional e internacional.  
Apesar dos atropelos e do preço que esse jornalista paga por exercer com dignidade e ética o seu jornalismo na região, o valor do Guerra Amazônica não se deve somente ao seu heroísmo e a demonstração evidente da ignorância e truculência das classes dominantes locais, cujos interesses se entrelaçam com grupos nacionais e internacionais. Guerra Amazônica tem o mérito de nos apresentar, sem rodeios, a versão não oficial dos fatos que compõe a história contemporânea da Amazônia.
O que o Lúcio faz com maestria é trabalhar com os fatos, checando-os,  testemunho-os, fazendo uma espécie de cartografia dessa guerra, seus atores, o desenrolar dos acontecimentos, desmontando evidências e fazendo aquilo que o sociólogo francês, Pierre Bourdieu, chamava de “desconfiança epistemológica”.
No futuro, quando algum pesquisador ou estudioso da Amazônia se debruçar sobre a história dessa região, não poderá desconhecer as informações fornecidas por Lúcio Flávio nos seus 40 anos de jornalismo nessa polêmica região, tão faladas, mas incrivelmente pouco conhecida. Neste livro, assim como outros que escreveu sobre os Projetos Jari e Carajás, assim como a coleção do Jornal Pessoal, temos hoje dados suficientes para repensar a ocupação dessa região.
O sociólogo paulista José de Sousa Martins, ao prefaciar um de seus livros, publicado pela Editora Hucitec, dizia com propriedade que Lúcio Flávio fazia um jornalismo sociológico que se diferenciava do jornalismo comum da grande imprensa. Não precisamos de muito esforço para perceber a veracidade dessa constatação. Lúcio nos oferece dados aos borbotões para compreendermos a complexa trama tecida entre o Estado e os interesses privados na região; os crimes de encomenda e seus mandantes, como o excelente trabalho jornalístico sobre o assassinato do ex-deputado pelo PC do B, Paulo Fontelles, em uma rodovia nas proximidades de Belém, matéria que recebeu uma premiação nacional de jornalismo.
 O livro Guerra Amazônica faz denúncias sérias, como dos presos que eram levados para “interrogatórios” de barco, à noite, para a Ilha de Cotijuba. Em outro momento relata com detalhes o assassinato de um “colunável” local que usava sua empresa de câmbio e turismo como fachada para o seu principal negócio: a cobertura do narcotráfico internacional, onde intermediou, em 1991, a “passagem de 100 milhões de dólares em cocaína para os Estados Unidos”.
Lúcio desvenda o mundo social da classe dominante local, um mundo aparentemente limpo que ocultava (e oculta) o submundo delinqüente, com tentáculos subindo aos patamares do poder e da chamada alta sociedade. Isso foi noticiado em uma época em que pouco se falava de lavagem de dinheiro nesse rendoso e próspero comércio ilegal de cocaína, cuja rota principal, como se sabe, passa hoje pela Amazônia.
O livro, também, torna evidente, através dos dados que oferecidos, como se dá na vida real a relação entre o “Brasil legal”, que a grande imprensa, na maioria das vezes, esconde, e o “Brasil real”, esse que se constrói nos bastidores das grandes negociatas, na delinqüência, onde o público e o privado se mesclam nesse submundo que movimenta bilhões de dólares e alimenta uma parcela da elite dominante local nas suas relações simbióticas com grandes grupos nacionais e internacionais.
O sociólogo ou historiador que um dia desejar escrever sobre a história da riqueza da elite dominante local não pode desconhecer a imensa quantidade de fatos, suficientemente checados e publicados, que esse jornalista nos oferece. A delinqüência que alimenta a história dessa riqueza regional, como o próprio autor nos diz, tem muitos “tentáculos” que nunca saberíamos pela “história oficial”, como, por exemplo, o rombo equivalente a 30 milhões de dólares que um ex-presidente do Banco da Amazônia, Augusto Barreira Pereira, deu na instituição, sob a convivência e o silêncio da grande imprensa local. Nem uma só linha saiu a respeito nos três jornais diários de Belém. Barreira era procurador de “O Liberal” e tinha apoio político do ex-governador e ex-senador Jader Barbalho, dono do “Diário do Pará”, comenta o autor, mostrando de que forma é costurada a cumplicidade entre os grupos dominantes locais.
Esses “tentáculos”, essas ramificações, são apoiados em muitas outras denúncias e compõem um grande painel fartamente documentado com fatos, números e personagens. O mais curioso (e trágico) é o desconhecimento e o silêncio cúmplice de amplos setores da sociedade local, o anestesiamento da consciência política, mesmo daqueles que têm conhecimento dos fatos narrados pelo autor.
Lúcio Flávio não é o Asterix na sociedade local, como o caricaturou um jornalista paraense Palmério Dória, que reside em São Paulo. Sua perseguição é o ônus que paga por ir contra a corrente dessa cultura da delinqüência que paradoxalmente adquiriu formas mortíferas mesmo nesse período de aparente democracia em que vivemos.
A gratidão e o reconhecimento de seu trabalho não se dá nos salões por onde circulam os delinqüentes de colarinho branco, com sua jagunçada pronta para qualquer “serviço” de seus mandantes. O que o torna uma figura ímpar no jornalismo brasileiro e uma figura singular, merecedora de respeito, simbolizado nos prêmios nacionais e internacionais que tem recebido na sua trajetória como jornalista, é sua capacidade de indignação, aliada ao seu compromisso ético inquebrantável de ser jornalista e sociólogo, mesmo no meio da promiscuidade da classe dominante, o que não é uma tarefa, diga-se de passagem, para qualquer um. Escrever uma história diferente desse enredo oficial, diz ele em seu livro, que desenvolve a região subdesenvolvendo-a, não é nada fácil.
 Se a sua inspiração é o jornalismo desenvolvido pelo americano I. F. Stone, no semanário I. F. Stone’s Weekley, que publicava desde 1952, “um jornalzinho feio e pobre”, mas lido até na Casa Branca, que também escrevia uma história diferente do “enredo oficial”, tudo bem, esse é seu ideal do que seja jornalista. Mas só esse modelo de Stone não caracteriza Lúcio nessa Guerra Amazônica.
 A América do Norte é radicalmente diferente de nossa América Latina, onde jamais um presidente da república lê um jornalzinho “feio e sujo”. Os “coronéis”, os de barranco, ou os novos ricos metidos em jogadas escandalosas, roubando os cofres públicos, os caciques formadores de opinião, talvez façam o contrário da classe dominante americana: os jornalzinhos “feios sujos e malvados” têm um destino trágico: vão direito para a latrina ou vão caçar quem comete essa ousadia, como fazem os Maioranas em Belém do Pará.
 Não estão interessados no conhecimento, no debate livre, ideal que a sociedade moderna e burguesa parecia idolatrar. São iconoclastas e predadores não só na Amazônia, onde a guerra é cruel, mas em todas as regiões do Brasil, como aqui na região Nordeste, onde a classe dominante local constrói uma universidade particular, funcionando, como ironiza o economista e sociólogo Chico de Oliveira, a gás butano, e paga salários miseráveis para os educadores que vão formar seus próprios filhos. O iluminismo não chegou por essas plagas. O  tempo da onça não está longe daqui, como dizia a filósofa paulista Olgária Matos em um de seus artigos.
Quando fui aluno de graduação em Ciências Sociais, na PUC de São Paulo, lá pelos finais dos anos 70, conheci um sociólogo que anda meio sumido. Recordo-me que de vez em quando, durante as férias, se embrenhava pelos “fundões” do Brasil. Lúcio conheceu esse professor, era o Luiz Alfredo Galvão, que também ministrou cursos na Faculdade de Sociologia e Política, onde Lúcio estudou. Ele, que conhecia o marxismo e o leninismo ortodoxo, principalmente o da III Internacional, versão PCB, que chegou na terra brasiliense. Fazia uma exegese cáustica (e crítica)  (para irritação dos esquerdistas ortodoxos) de certa versão do marxismo tupiniquim tão idolatrado na época. Seus argumentos eram bem fundamentados e provocativos e gostava sempre de dizer que sociólogo e antropólogo não conhece o Brasil, nem como turista nem como estudioso de sua sociedade. Enquanto tomavam como modelo a revolução russa e os escritos de Lênin desse período, desconheciam por completo o solo onde estavam pisando.
Lúcio revela neste livro um pouco de seu desejo quando ainda estudava na Faculdade de Sociologia e Política: estudar os intelectuais de 20 e 30 chamados de direita: Oliveira Viana, Azevedo Amaral, Lourival Fontes. Todos atentos a Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda (...), incluindo Gilberto Freyre, que conheciam o Brasil melhor dos que os de esquerda. Os pensadores conservadores, como Paulo Prado, conheciam o Brasil melhor que os de esquerda.
Ele já compreendia o valor da polêmica como oxigenador da democracia. Influenciado por seus mestres menos ortodoxos, sabia que o sociólogo, sem o contato com mundo social onde está inserido, torna-se um acadêmico burocrático, estéril, para não dizer inútil. Creio que essa insatisfação com a sociologia de gabinete, copiada, muitas vezes, de modelos teóricos de outros continentes, não daria conta de explicar a realidade do país e da região onde estava inserido, por mais sofisticada que essas teorias se apresentassem. Como dizia o Luis Alfredo Galvão na época: não se faz sociologia sem dados empíricos, sem um conhecimento do Brasil. Temos que tirar a bunda das cadeiras e conhecer esse país, dizia ele nos fazendo dar boas gargalhadas.  
Suponho, portanto, que esse período em São Paulo, em que Lúcio transitou com desenvoltura entre a sociologia e o jornalismo e, posteriormente, o contato com o trabalho de Stone, foram elementos fundamentais para que decidisse mergulhar na realidade amazônica, tarefa que desenvolve com grande inteligência e desenvoltura excepcional. Sua ousadia, ou para alguns, a sua loucura, tem método, como dizia o poeta inglês.
Ele revela isso claramente na página 26 de seu livro, quando de forma cáustica nos diz:
O brasileiro continua a viver como caranguejo, arranhando o litoral, para usar a imagem quinhentista. É sempre o pensamento do litoral voltado para fora do Brasil. O Brasil não conhece o Brasil. A penetração para o Oeste, mais destrói do que conscientiza. A descoberta do Brasil não passa de movimentos espasmódicos e cheio de exotismo. É o fundador, o descobridor querendo que a passagem original se transforme de acordo com sua visão de colonizador. Isso me levou a desistir da grande imprensa, que, segundo ele, é muito pior do que na época do regime militar.     

Lúcio Flavio é um obstinado e tem plena consciência do trabalho que faz e da contribuição que presta ao Brasil e à Amazônia, particularmente. Atualmente duela com a máquina judiciária em Belém do Pará, envolvendo-se no emaranhado desse “poder terrível”, onde, mesmo sendo réu e respondendo a dezenas de processo, consegue ter a lucidez de por em prática sua capacidade analítica, conforme podemos verificar ao ler seu livro. Acaba fazendo, na prática, uma espécie de “genealogia do poder judiciário”, para usarmos uma expressão foucaultiana, nos mostrando como funciona essa terrível máquina de triturar chamada Justiça, com suas engrenagens, suas armadilhas e sutilezas muito mais terríveis do que aquela vivida pelo personagem de Franz Kafka em O Processo.
É admirável e polêmico o livro de Lúcio Flávio Pinto. Conheço poucas regiões onde existam jornalistas dessa extirpe e com tamanha ousadia e inteligência. Se em cada lugar do país existisse jornalista como ele, teríamos parte importante da história não oficial do Brasil contada e perceberíamos com mais clareza como é tecida a dominação de classe, sem generalizações apressadas e teorias fora do lugar.
Vivo atualmente no Ceará, apesar de ser paraense. Em Fortaleza, dois grandes jornais controlam as informações no Estado. Imagino a falta que faz um jornalista com o perfil desse sociólogo-jornalista. A história dessas duas regiões ainda está para ser contada. O paraense tem sorte, pois tem uma quantidade de dados em suas mãos e trata de escrevê-la, pois assunto não falta. Um outsider na imprensa cearense faz muita falta e, por isso, dormitamos no silêncio cúmplice de governos que se dizem democráticos no meio de uma imensa miséria rural e urbana.
O Nordeste e Norte são irmãos, pois possuem histórias em comum. Somos caboclos descendentes de índios; somos, como Lúcio, filhos de migrantes fugidos da seca em busca de Eldorado que começou a ser devastado e que já vem experimentando, também, a seca.
A Guerra Amazônica é a guerra de todos nós, a luta de classe demonstrada sem rodeios e escancarada para os cidadãos que vivem nessa frágil democracia, sem sociedade civil consciente e organizada. O tempo dirá que destino teremos: o eterno subdesenvolvimento? 
Guerra Amazônica nos traz muito material para discussão e pesquisa. É um livro imprescindível para qualquer pessoa que crê na possibilidade de mudar esse país.
   

PINTO, Lúcio Flávio. Guerra Amazônica, Edição Jornal Pessoal, Primeiro Volume, Novembro de 2005, 300 páginas.