Benedito Carvalho Filho
Acabo de ler o livro do filósofo Vladimir Safatle, A esquerda que não teme dizer seu nome, Editora Três Estrelas.
O autor é professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e colunista do jornal Folha de São Paulo e autor de uma vasta obra, entre, como A paixão do negativo: Lacan e a dialética (UNESP, 2006), Lacan (Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (Boitempo, 2008), Fetichismo: colonizar o outro (Civilização Brasileira, 2010) e Grande Hotel abismo: por uma reconstrução da teoria do reconhecimento (Martins Fontes). Atualmente Safatle é um dos colunistas da revista paulista Carta Capital.
A esquerda que não teme dizer seu nome é um livro de fácil leitura, ao contrário do Grande Hotel abismo: por uma reconstrução da teoria do reconhecimento. Nele nos defrontamos com questões importantes para repensar o papel das esquerdas hoje, principalmente das derrotas sofridas pelo desmoronamento do chamado Socialismo Real, a queda do Muro de Berlim e a ascensão do neoliberalismo.
Safatle, com sua finess de um intelectual uspiano, trafegando pelo mundo intelectual europeu, não é mais um daqueles intelectuais tão comuns nos tempos de hoje que abdicaram do exercício da crítica e que enxergam o mundo totalmente dominado pela cultura do desânimo, o ceticismo e o cinismo. Pelo contrário, usando da reflexão crítica, revitalizando o pensamento hegeliano e o pensamento frankfurniano, o filósofo uspiano nos oferece nesse livro, como afirma, uma cartografia inicial de questões que podem orientar o pensamento na definição da pauta de uma esquerda renovada.
Quais seriam essas questões que a esquerda não deve temer?
Não vou reproduzir nesta resenha todos os aspectos que o autor nos oferece para uma maior reflexão, assim como as implicações que eles vão adquirindo ao longo do livro.
Uma das questões bem enfatizada pelo autor é na necessidade de recuperar o conceito de soberania, ou seja, na defesa radical do igualitarismo, que, segundo ele, fornece a pulsão fundamental do pensamento de esquerda. E adianta: por igualitarismo devemos entender duas coisas. Primeiro, que a luta contra a desigualdade social e econômica é a principal luta política.
Para isso, ao contrário de muitas posições libertárias, que via o Estado como “aparelho da classe dominante”, Safatle afirma que, para vencer o problema das desigualdades sociais, a função do Estado é importante. O Estado, afirma, é a única instituição que garante o estabelecimento de processos gerais capazes de submeter toda a extensão da sociedade.
Mas só o Estado como instituição garantirá garante a igualdade social, pois ele e resultado de uma rede de normas sociais cuja configuração é sensível à pressão da sociedade organizada. Tal pressão pôde, em vários momentos da história do século XX, transformar o Estado em força capaz de limitar interesses de concentração de riquezas vindos dos setores mais afluentes da sociedade.
Para ele, portanto, não há outra instituição capaz de desempenhar papel semelhante. Por isso, em nome do combate à desigualdade econômica, a esquerda não pode abrir mão do fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado.
Ao contrário das críticas que faziam os movimentos animados pelo saldo libertário de Maio de 1968, Safatle afirma que o Estado moderno não pode ser reduzido a um aparato disciplinar, pois os últimos trinta anos demonstraram claramente como dinâmicas de redistribuição e de luta contra fraturas sociais não se realizam sem a intervenção do Estado.
O papel do Estado é certamente um ponto polêmico, principalmente porque certas esquerdas (ou certo setores da esquerda) que ainda trabalham com a idéia do Estado como sendo o “comitê da classe dominante”, segundo a versão leninista, a mais difundida. O autor não explica qual o Estado e em que situação ele se encontra. O Estado burguês? O Estado funcionando em regime democrático? Isso não ficou muito claro nas reflexões do autor.
Um ponto polêmico, e que, certamente, provoca muitas discussões em vários campos, é a afirmação contundente do autor quando afirma que a esquerda deve ser “indiferente” às diferenças”, ou seja, a política atual da esquerda só pode ser uma política da indiferença”.
Afirma o autor:
Durante certo tempo, embalada pelos ares libertários de Maio de 68, a esquerda viu na “diferença” o valor supremo de toda crítica social e ação política. Assim, os anos 1970 e 1980 foram palco da constituição de políticas que, em alguns casos, visavam a construir estrutura institucional daqueles que exigiam o reconhecimento da diferença no campo sexual, racial, de gênero etc. Uma política das defesas das minorias funcionou como motor importante do alargamento das possibilidades sociais de reconhecimento. Essa política gerou, no seu bojo, a exigências de tolerância multicultural que pareciam animar o mundo, sobretudo a partir de 1989, com a queda do Muro de Berlim.
Para ele, os conflitos fundamentais no interior do universo social foram compreendidos como conflitos culturais, o que acabou sendo usado pela direita mundial, em especial na Europa, onde um clássico conflito de classe e espoliação transformou-se em choque civilizatório.
E constata, afirmando que a estratégia de esvaziamento de conflitos sociais por meio da cultura seja responsável também pela inacreditável onda de nacionalismos requentado que invade a Europa.
E afirma:
(...) uma das maiores invenções da modernidade foi o imperativo de que nem a nação como construção imaginária, nem o Estado como aparato jurídico-institucional podem estar relacionados à política com uma lógica que bloqueia o que há de determinação universal em todo e qualquer sujeito. Nação e Estado devem ser assim absolutamente indiferentes às diferenças, no sentido de aceitá-las todas e esvaziar a afirmação da diferença de qualquer conteúdo político.
E mais:
O espaço político não pode ser marcado pela afirmação da diferença, mas pela indiferença absoluta em relação a qualquer exigência identitária.
Essa questão levantada por Safatle é importante e tem muitas conseqüências na prática política. É a “cilada da diferença” em que muitos que se dizem de esquerda ainda estão profundamente impregnados e que hoje, como ele aponta, é usada à exaustão pela direita mundial, em especial na Europa.
Até onde suportar a diferença? – pergunta. Quando se fala em suportar a diferença, diz ele, parte-se do pressuposto de que vejo o outro primeiramente a partir da sua diferença à minha identidade. Como se a minha identidade já estivesse definida e simplesmente se comparasse à identidade do outro. Nada mais falso.
Ao se referir a uma das maiores invenções da modernidade, Safatle lembra que,
(...) uma das maiores invenções políticas da modernidade foi o imperativo de que nem a nação como construção imaginária, nem o Estado como aparato jurídico-institucional podem ser relacionados ao povo como identidade, pois isso significa colonizar a política com uma lógica que bloqueia o que há de determinação universal em todo e qualquer sujeito. Nação e Estado devem ser absolutamente indiferentes às diferenças, no sentido de aceitá-las todas e esvaziar a afirmação da diferença de qualquer conteúdo político.
E conclui:
O espaço político não deve ser marcado pela afirmação da diferença, mas pela indiferença absoluta em relação a qualquer exigência identitária.
Outros pontos importantes para a discussão são levantados nesse livro, como a diferença entre Justiça e Direito, o questionamento da idéia de democracia, onde estamos muito acostumados com a idéia de democracia associada com a democracia parlamentar.
Afirma Safatle:
Como dizia Derrida, eis a razão pela qual só podemos falar em “democracia por vir”, e nunca em democracia como algo que se confunde com a configuração do atual do nosso Estado de Direito. Contra os arautos do Estado democrático de Direito, que procuram nos resignar às imperfeições atuais da democracia parlamentar, devemos afirmar os direitos de uma “democracia por vir”, que só poderá ser alcançada se assumirmos a realidade da soberania popular. Estas são, pois, as duas pernas de toda política de esquerda que não teme dizer seu nome: igualitarismo e soberania popular.
O livro de Safatle tem 84 páginas. Parece pequeno para as questões que aborda, mas é denso, provocador e toca em temas polêmicos que nos ajuda sair da mesmice e do pensamento único e nos convida a refletir e alargar nosso campo de visão, às vezes tão congelados pelos velhos chavões e paradigmas repetidos à exaustão. Ousar dizer seu nome é ousar pensar, pois pensar de verdade significa pensar na sua radicalidade, utilizar a força da crítica e a força radical do pensamento, como diz o autor.

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